Uma equipe de estudantes e professores do IMPA Tech está usando ferramentas de Inteligência Artificial (IA) para investigar um aspecto pouco explorado da obra de Candido Portinari (1903–1962): sua escrita. O projeto “Assinatura Linguística de Portinari”, desenvolvido em parceria com o Instituto PUC-Behring de Inteligência Artificial no âmbito do Projeto Portinari, visa a analisar o acervo de cartas pessoais do artista para identificação de padrões linguísticos capazes de revelar traços de autoria e aspectos de seu pensamento.
Reconhecido como um dos maiores pintores brasileiros e figura central do Modernismo no país, Portinari retratou em suas obras temas como desigualdade social, a vida no campo, a infância e o sofrimento dos trabalhadores. Já as cartas escritas pelo artista constituem uma rica fonte para estudos culturais e linguísticos, permitindo compreender melhor sua visão de mundo, seus processos criativos e o contexto histórico e social em que viveu.
A partir desse material, o projeto busca identificar artefatos linguísticos, escolhas lexicais e padrões sintáticos que caracterizam a chamada assinatura linguística do pintor. O objetivo é desenvolver métodos capazes de decidir se determinados trechos foram efetivamente escritos por Portinari, contribuindo para a identificação de autoria textual.
Para isso, a equipe emprega técnicas avançadas de IA, com destaque para Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) e modelos fundacionais. O desenvolvimento de novas metodologias de organização e análise de dados linguísticos poderá, no futuro, ser aplicado a diferentes corpora — conjuntos de dados formados por recursos linguísticos digitais ou digitalizados, anotados ou não anotados. Esse tipo de abordagem permite extrair características psicológicas e socioculturais de indivíduos, populações e períodos históricos.
O projeto foi criado em parceria com João Candido Portinari, filho do pintor e diretor-geral do Projeto Portinari. No IMPA Tech, participam da iniciativa os professores Emilio Brazil, Cilene Rodrigues, Asla Sá, Rodrigo Ribeiro e Uéverton Souza, cada um responsável por uma etapa da pesquisa e pela orientação dos estudantes na concepção, no desenvolvimento e na produção do material.
Os estudantes do bacharelado em Matemática da Tecnologia e Inovação estão na fase inicial do trabalho, dedicada à curadoria do acervo e à análise das cartas escritas por Portinari.
“Tem sido uma experiência muito boa. Sempre gostei muito de arte e literatura. Com o projeto, além de conhecer mais a fundo quem foi Portinari, consigo unir Matemática e essas paixões. É algo emocionante, porque todo mundo conhece o pintor famoso que mudou a arte brasileira, mas agora estamos vendo quem ele foi e o que escrevia”, afirma a aluna Nicole Freire.
No dia 26 de fevereiro, os alunos estiveram no Instituto de Letras da PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro) para uma reunião com João Candido, quando apresentaram os primeiros avanços do projeto. Durante o encontro, foram analisados metadados das cartas, como data, destinatário e resumo do conteúdo.
Entre os próximos passos está a aplicação de técnicas de Reconhecimento Óptico de Caracteres (OCR) para transformar as imagens das cartas em texto. Em seguida, serão utilizados modelos de aprendizado de máquina para aprimorar as transcrições, corrigindo erros e preservando características linguísticas e paralinguísticas relevantes.
“Espero adquirir mais conhecimento sobre a história e o potencial da IA. Vamos usar bastante essas ferramentas para enfrentar e superar desafios. É a primeira vez que trabalho com análise de dados em um banco grande e detalhado, e acredito que isso vai contribuir muito para minha jornada acadêmica”, diz Nicole.
O interesse dos estudantes pelo tema começou ainda em novembro de 2025, quando João Candido apresentou o trabalho do Projeto Portinari em uma palestra no IMPA Tech. A partir de algumas das pinturas mais icônicas do artista, os estudantes conheceram parte do acervo que reúne mais de 5.400 obras.

Palestra de João Candido no IMPA Tech
Entre elas estão Retirantes (1944), Café (1935), Criança Morta (1944) e o monumental Guerra e Paz (1952–1956), formado por dois grandes painéis encomendados pela ONU (Organização das Nações Unidas).
Agora, os alunos passam a conhecer o artista também por meio de sua produção epistolar. Graças ao trabalho de preservação e digitalização realizado pelo Projeto Portinari, a equipe pode aplicar ferramentas matemáticas, linguísticas e plataformas de IA para extrair padrões de linguagem, modelar contextos e criar representações vetoriais capazes de identificar estilos e relações estruturais nos textos.
Com isso, o projeto tem potencial para se tornar uma ferramenta relevante em estudos sobre evolução da linguagem, variações linguísticas sincrônicas e diacrônicas e verificação de autoria textual em diferentes contextos.