Carreira sem Fronteiras: inovação aplicada à cognição e saúde mental
Neurocientista Natália Mota palestrou aos estudantes nesta terça (28)
Como transformar relatos em dados capazes de indicar padrões cognitivos e emocionais? A interseção entre neurociência, linguagem e ciência de dados guiou o encontro desta terça-feira (28) do projeto ‘Carreira sem Fronteiras’, que reuniu estudantes das três turmas do IMPA Tech. A convidada foi Natália Mota, psiquiatra, neurocientista, professora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e cientista-chefe da startup Mobile Brain, que desenvolve ferramentas capazes de analisar narrativas orais com apoio de inteligência artificial.
Referência internacional em inovação aplicada à saúde mental, Natália apresentou aos alunos como conceitos matemáticos e computacionais podem contribuir para avaliações cognitivas mais objetivas e humanas. Durante a conversa, a pesquisadora compartilhou bastidores da própria trajetória interdisciplinar e mostrou como a tecnologia pode apoiar escolas, empresas e profissionais de saúde no acompanhamento do bem-estar emocional e do desenvolvimento cognitivo.
Há cerca de 2 anos no ar, a plataforma já realizou mais de 20.237 coletas de dados com 10.571 usuários, em diferentes regiões do Brasil. “Temos uma potência em nossas mãos, que é o smartphone, mas seguimos fazendo avaliações subjetivas na medicina, que usam apenas o entendimento de um médico. E isso pode melhorar com a tecnologia. De maneira precisa e objetiva, utilizamos processamento de linguagem natural para apoiar decisões pautadas em dados”, explicou Natália.
A partir da análise de narrativas orais, a ferramenta identifica padrões que refletem o desenvolvimento cognitivo e emocional de: estudantes, permitindo acompanhar o progresso da aprendizagem; colaboradores de empresas, possibilitando identificar áreas e ambientes com maior potencial de melhoria na comunicação e nas interações humanas; e de pacientes médicos, apoiando intervenções com foco na prevenção.
A base acadêmica da funcionalidade é a linguagem, avanço evolutivo fundamental para o desenvolvimento da humanidade. “Linguagem falada é algo especialmente importante para nossa espécie. Ao longo dos anos, desenvolvemos um senso de coletividade fundamental para a organização social, que é potencializada pela linguagem. Ao analisar um discurso, observamos o encadeamento de ideias e a organização mental do indivíduo”, explicou Natália.
A professora Cilene Rodrigues acompanhou a apresentação e elogiou o trabalho da pesquisadora. “A Natália é uma vitoriosa. Ela criou um produto que tem uso prático e valoriza a ciência de base desse país. Cada um de nós tem a responsabilidade de fomentar a ciência de base nas coisas que fazemos, usando a inovação e a interdisciplinaridade”, disse, ao instigar os alunos a criarem ideias novas soluções inovadoras.

Para o aluno Italo Souza, da ênfase em Matemática, o encontro foi inspirador. “A palestra mostrou como a teoria dos grafos pode apoiar a neurociência, uma solução improvável, mas brilhante, que tem ajudado muitas pessoas. Estou cada vez mais aberto à interdisciplinaridade, que é justamente umas das propostas do IMPA Tech, ao conectar diversas áreas do conhecimento. A ciência de base é fundamental, são os ‘tijolinhos’, as ferramentas que constroem aplicações úteis para a sociedade.”
Natália falou também sobre os desafios de gênero na ciência, e se direcionou às meninas da graduação. “Não é fácil ser mulher e ocupar ambientes acadêmicos, que são marcados pelo machismo estrutural. Precisamos ser multitarefas, lidar com inseguranças e com as relações no trabalho.” Para tentar reduzir as dificuldades no caminho, a pesquisadora fundou o grupo Sci-Girls Brasil, que realiza rodas de conversa de ajuda mútua para mulheres na ciência.
Ao final do bate-papo, a médica voltou a defender a importância da interdisciplinaridade, um dos pilares do IMPA Tech, e a liberdade de mudar a rota ao longo da trajetória profissional. “Não pensem que uma escolha pontual definirá sua carreira para sempre. A mistura de ambientes permite o surgimento de novas ideias e da inovação. Não se fechem naquilo que já escolheram, se permitam estar abertos a novas ideias”, disse aos alunos.
O projeto Carreira sem Fronteiras é realizado pelo Núcleo de Carreiras e Estágios (NCE), quando um convidado externo compartilha bastidores sobre carreira, experiências de pesquisa e soluções inovadoras reais. Em fevereiro, no primeiro encontro, o designer gráfico mexicano Francisco Rodarte conversou com os jovens sobre os desafios e as oportunidades do trabalho internacional na área de tecnologia.
