Seminário: Censo Agro 2027 desafia logística e mobiliza ciência de dados
Marcelo Maia apresenta bastidores da operação do IBGE em escala nacional
Os bastidores logísticos de uma das maiores operações estatísticas do país foram o foco do seminário acadêmico realizado nesta terça-feira (14). Convidado da semana, o professor do IMPA Tech e pesquisador do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) Marcelo Maia apresentou aos estudantes os desafios por trás do Censo Agropecuário 2027, levantamento responsável por atualizar informações estratégicas sobre a produção rural brasileira.
Diante de uma sala cheia de alunos do bacharelado em Matemática da Tecnologia e Inovação, Maia explicou o papel central do IBGE na produção de dados oficiais e contextualizou a diferença entre pesquisas amostrais e censitárias. “No Censo, buscamos retratar a totalidade. No caso do Censo Agro, isso significa alcançar todos os estabelecimentos agropecuários do país”, afirmou.
A dimensão da operação ajuda a explicar sua complexidade. São mais de 5 milhões de estabelecimentos distribuídos por cerca de 8,5 milhões de km², o que exige soluções avançadas de planejamento territorial, logística e mapeamento. Nesse contexto, ferramentas da ciência de dados e da otimização combinatória tornam-se essenciais para garantir eficiência e precisão.
Segundo o pesquisador, a natureza dinâmica do setor agropecuário impõe desafios adicionais. “Os dados não são estáticos, e a própria configuração do território muda. Precisamos de soluções capazes de se adaptar a essa realidade, buscando sempre a melhor alternativa entre várias possibilidades viáveis”, explicou.
Durante a apresentação, Maia mostrou como diferentes etapas da operação censitária podem ser modeladas matematicamente. A delimitação de talhões agrícolas, por exemplo, é realizada com o uso de visão computacional e técnicas de deep learning aplicadas a imagens de sensoriamento remoto, permitindo identificar padrões de uso do solo com maior precisão. Já a definição dos postos de coleta envolve a distribuição de cerca de mil bases operacionais pelo território nacional, equilibrando a área de cobertura e volume de estabelecimentos atendidos.
Outro ponto crítico é o planejamento das rotas dos recenseadores. A proposta para 2027 é substituir deslocamentos exploratórios por trajetos previamente otimizados, construídos a partir da integração de bases geoespaciais e dados de observação da Terra. Esse processo permite mapear com mais fidelidade a malha viária rural e organizar, em larga escala, o trabalho de campo.
A última edição do Censo Agropecuário foi realizada em 2017. Uma década depois, a atualização dos dados é considerada fundamental para a formulação de políticas públicas mais alinhadas à realidade do campo brasileiro. A nova edição também deve ampliar o escopo da pesquisa, com a inclusão inédita de informações sobre povos e comunidades tradicionais.

Para os estudantes, o seminário ofereceu uma oportunidade de aproximar teoria e prática. “Conseguir observar essas aplicações me motiva a continuar estudando e buscando temas interessantes”, afirmou Lucca Moulin, aluno da ênfase em Ciência da Computação. “A matemática auxilia diretamente na otimização de processos, por meio de ferramentas que modelam problemas reais e facilitam sua resolução”, completou.
A aluna Julia Quiuqui, da ênfase em Ciência de Dados, também destacou a relevância da apresentação, especialmente no contexto dos desafios territoriais do país. “Foi muito interessante conhecer novas aplicações da ciência em um contexto geográfico. Em um território tão extenso como o Brasil, o mapeamento de estabelecimentos rurais pode ser um grande desafio, mas, com o uso de ferramentas matemáticas, esse processo pode ser significativamente aprimorado”, afirmou.
Maia também é pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Computação da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde concluiu a graduação, o mestrado e o doutorado em Computação, com período de doutorado-sanduíche na University of Kent, no Reino Unido. Seu trabalho tem sido reconhecido em importantes fóruns acadêmicos, com destaque para os prêmios de melhor tese de doutorado no Simpósio Brasileiro de Pesquisa Operacional (2023) e na IEEE Latin American Conference on Computational Intelligence (2022), entre outras distinções.
